Ator recebeu homenagem no Festival de Veneza e chamou atenção ao falar sobre deepfakes, uso indevido da imagem de artistas e dificuldade crescente para distinguir conteúdos verdadeiros de falsos
O ator George Clooney, de 65 anos, levantou uma discussão curiosa e cada vez mais atual durante sua passagem pelo Festival Internacional de Cinema de Veneza. Ao falar sobre os avanços da inteligência artificial, o astro de Hollywood demonstrou preocupação com a possibilidade de sua imagem continuar sendo utilizada digitalmente até mesmo depois de sua morte.
Clooney esteve em Veneza para receber o Leão de Ouro pelo conjunto da carreira, uma das principais homenagens concedidas pelo festival. Durante uma conversa com jornalistas, porém, o ator aproveitou o momento para abordar um problema que já ultrapassou os limites do cinema: a criação de vídeos, vozes e imagens extremamente realistas por inteligência artificial.
Segundo Clooney, a evolução dos chamados deepfakes está tornando cada vez mais difícil identificar aquilo que realmente aconteceu e aquilo que foi produzido artificialmente. Para o ator, a situação também representa um desafio para o jornalismo, já que conteúdos falsos podem fazer com que o público passe a desconfiar até mesmo de registros autênticos.
A preocupação ganhou um tom bem-humorado quando ele mencionou o próprio futuro. Clooney brincou sobre não querer descobrir que sua imagem estaria sendo usada, décadas depois de sua morte, em propagandas nas quais jamais concordaria em aparecer. Por trás da brincadeira, a declaração toca em uma discussão séria: quem poderá controlar a imagem, a voz e a aparência digital de uma pessoa depois que ela morrer?
O ator afirmou ainda ter conversado recentemente com profissionais envolvidos no desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial. Segundo ele, as atuais medidas de proteção ainda não parecem suficientes para acompanhar a velocidade de evolução dessas ferramentas.
Hollywood já discute o futuro dos atores digitais
O avanço da IA vem criando uma situação inédita para a indústria do entretenimento. Hoje, programas conseguem recriar rostos, modificar vozes e produzir vídeos realistas de pessoas que nunca participaram de determinada gravação.
Isso significa que, tecnicamente, a aparência de um ator pode continuar sendo reproduzida mesmo quando ele já não estiver disponível para participar de uma produção.
A discussão envolve contratos, direitos de imagem, autorização das famílias e remuneração. Também existem preocupações relacionadas ao uso não autorizado de celebridades em propagandas falsas, golpes e conteúdos manipulados.
O caso chama ainda mais atenção porque George Clooney está entre os atores mais reconhecidos mundialmente, o que torna sua imagem particularmente valiosa para publicidade e produções audiovisuais.
Ator também demonstrou preocupação com o jornalismo
Clooney relacionou a inteligência artificial a outro assunto que considera preocupante: a forma como as pessoas recebem informações.
Na avaliação do ator, a disseminação de conteúdos artificiais pode criar um cenário em que qualquer imagem verdadeira seja questionada como falsa.
O risco, segundo ele, não está apenas em acreditar em uma mentira criada por IA, mas também em deixar de acreditar em algo verdadeiro porque existe a possibilidade de manipulação.
Clooney também criticou a concentração de grandes veículos e plataformas de comunicação nas mãos de algumas das pessoas mais ricas do mundo, citando o poder exercido atualmente por grandes empresários sobre os meios pelos quais milhões de pessoas recebem notícias.
Homenagem marcou quase três décadas de relação com Veneza
Além das declarações sobre tecnologia, a passagem pelo festival teve significado especial para o ator.
Clooney recebeu o Leão de Ouro honorário após décadas de carreira no cinema, tendo participado pela primeira vez do Festival de Veneza no fim dos anos 1990.
O ator aproveitou a homenagem para refletir sobre envelhecimento, cinema e as transformações da indústria. Apesar do tom descontraído, deixou uma questão que deverá ser cada vez mais discutida nos próximos anos.
Com a inteligência artificial avançando rapidamente, celebridades podem precisar pensar não apenas em como sua imagem é utilizada enquanto estão vivas, mas também em quem terá o direito de controlar sua versão digital no futuro
